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Os sinais da crise externa se aprofundam: Repercussões sobre o Brasil

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(4’49” / 1,1 Mb) - O recrudescimento e aprofundamento da crise financeira na zona do Euro, que a cada semana se revela mais ampla e potencialmente contaminante para além do limites da Grécia, significam desde logo um preâmbulo de estagnação econômica para toda a Europa. O que se discute, atualmente, é a necessidade de não aprofundar essa estagnação com as políticas econômicas em cogitação na Europa e nos Estados Unidos – umas e outras potencialmente capazes de se influenciar mùtuamente e de repercutir nos rumos da economia mundial.

A crise financeira europeia de 2011 é uma espécie de “metamorfose ambulante” da crise financeira norte-americana de 2008, cuja solução pela via da socialização das perdas (de trilhões de dólares), ao que tudo indica não restaurou o ‘estado de confiança’ do sistema econômico, mas afetou seriamente as finanças públicas norte-americanas.

Atualmente, discutimos se temos em foco uma crise estrutural e longa duração do capitalismo, a exemplo de 1929, ou uma dentre muitas dezenas de crises cíclicas do sistema nos últimos 200 anos, equacionáveis dentro das próprias instituições nacionais das economias centrais. Mas o que está ficando cada vez mais claro, qualquer que seja a concepção teórica do analista, é o caráter duradouro e mundial dessa crise, que, certamente, afetará também as economias emergentes dos denominados BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Por sua vez, se não há quem duvide da seriedade da crise financeira externa ou tampouco da possibilidade de suas ondas secundária ou terciária nos afetarem, diverge-e fortemente sobre como tratá-la, para o que contam visões ideológicas distintas e interesses de classes e grupos sociais em jogo.

Mira-se a política econômica do Estado com muito maior atenção e preocupação, porque nessas circunstâncias críticas são arbitradas de forma planejada ou não: condições conjunturais (abaladas) de apropriação da renda social e as reformas institucionais que preparariam o sistema econômico para conviver e superar o ambiente de estagnação econômica imposto pela crise.

Com relação ao primeiro item, considerem-se quatro componentes da renda social que estão direta e imediatamente afetados pelo rumo atual da crise financeira – massa de salário, direito sociais onerosos, juros e rendas financeiras e renda fundiária, para os quais a política econômica faz toda diferença.

Os juros dos detentores de dinheiro e os rendimentos dos ativos financeiros portadores de rendimentos prováveis (ações e outros títulos de renda) são normalmente rebaixados nas crises financeiras. Aqui entre nós, os juros teimam em se situar em patamares irreais, de longa data, apoiados numa peculiar aliança do sistema financeiro privado com o Estado – há praticamente duas décadas, independentemente das crises financeiras.

A renda fundiária, que em parte reflete a demanda mundial por “commodities”, deverá perder parte de sua excessiva valorização da última década, expressa em preços de terras rurais; tão logo se manifestem as tendências baixistas nos mercados agrícolas e minerais. Mas isto também dependerá da política econômica e agrária.  Se apostarem todas as fichas na “solução” primário-exportadora, haverá ainda maior socialização das perdas e concentração da riqueza fundiária.

A massa de salários e o nível de emprego deverão cair um pouco, com a reacomodação da economia para crescer entre 3% a 3,5% ao ano. Mas dependerá muito da política social de Estado (seguridade social bàsicamente) a capacidade de minimizar os efeitos da crise sobre os desempregados circunstanciais e empregados formais (83% dos quais descontam salários de contribuição de um a três salários mínimos); e à dinâmica do mercado interno manter o ritmo de crescimento do emprego da última década.

Todos os arranjos de economia política objeto dos comentários anteriores pressupõem uma crise cíclica convencional do capitalismo. Mas se essa for uma crise estrutural de longa duração, a reestruturação institucional logo entrará na agenda política, para o que, infelizmente, estamos mal equipados intelectualmente para lidar com essa classe de fenômenos. Isto é verdadeiro tanto para o pensamento conservador, cujo receituário para enfrentar as crises, aprofundam-nas. Mas também o é para o pensamento crítico – keynesiano e marxiano – cujas vias alternativas construídas no século passado são muito limitadas para dar conta do futuro.

O capitalismo, sob a égide do capital financeiro, está criando rupturas sistêmicas, insuperáveis pela lógica estrita do capital e do dinheiro ou ainda pela ética do utilitarismo social. Coragem para pensar o futuro, com compromisso de reconstruir o país sob nova cultura do desenvolvimento ou adaptar-se ao constrangimento permanente da dependência externa, pode ser uma disjuntiva que terá percepção geral.

Guilherme Delgado é doutor em Economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

13/10/11

Aviso: o áudio encontra-se resumido, não contendo algumas informações do texto.