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Brasil: as leituras do lado de lá e de cá

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O acirramento dos conflitos sociais é inerente ao modelo de sociedade fundado e organizado historicamente pelo capital. Vergonhosamente, a poderosa mídia de cá, quando ,autônoma reforça seu ódio de classe

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Roberta Traspadini*

(5’58” / 1.37 Mb) - É interessante analisarmos, a partir do que se transmite nos canais de TV e nos jornais internacionais, a visão das nossas manifestações. Dos EUA, passando pela América Latina e chegando aos outros continentes, a percepção do senso comum hegemônico é superior ao sentido crítico social.

1.    A mídia de lá

A projeção das imagens das manifestações pelos detentores norte-americanos dos satélites que transmitem as cenas através da intencionalidade de suas antenas foi a de um País levantado como o resultado da desigualdade social presente.

Esquecem de dizer que a desigualdade não é o resultado do modelo de desenvolvimento brasileiro por si só. O acirramento dos conflitos sociais é inerente ao modelo de sociedade fundado e organizado historicamente pelo capital, cuja liderança continua sendo das empresas e do Estado militar norte-americano.

Esquecem de dizer que o capital norte-americano atuante em território brasileiro é protagonista do modelo de desenvolvimento desigual e, quanto mais ele cresce  expropriando terras, espoliando pessoas e especulando com os territórios, mais acentuadas ficam as históricas mazelas sociais do País.

Esquecem de dizer que o desenvolvimento das redes sociais, mediado pelos grandes lucros que o capital norte americano organiza, além de espiar todos os conteúdos divulgados e socializados, utiliza dita informação para dar continuidade ao seu jogo de manipulação orquestrada desde cima. 

Mas dizem muitas coisas, constroem imagens, distorcem fatos, reforçam atos. O poder midiático norte-americano reforça a centralidade da criminalização das lutas, da apolitização partidária da juventude e da tendência criminosa da participação dos sujeitos estereotipados por ela como vândalos-arruaceiros-baderneiros.

A mídia do lado de lá, ao norte, não só denuncia desde suas perspectivas de poder o que está ocorrendo do lado de cá, quanto anuncia sua forma e seu conteúdo de manipulação a ser reproduzido pela mídia subordinada, dependente e fotocopiadora original, do lado de cá. Com a escusa dos jogos, reproduz sua onipotente leitura hegemônica de mundo.

2.    Mais ao sul

No panorama midiático latino-americano mais progressista, como Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador, a leitura é de expectativa sobre o que poderá vir a ser. Mais do que o significado real do fato, os Estados e suas mídias alternativas estão relatando se é possível, ou não, a partir destas manifestações sociais, o Governo brasileiro, tensionado por todos os lados, optar por um projeto de sociedade com um perfil diferenciado do até então realizado. Sabem eles que as tensões tanto de fora, quanto de dentro, são para as mudanças que liberem o acesso do capital transnacional sobre o trabalho nacional. Mas aguardam ansiosos que na relação tensionada entre Estado e sociedade possa haver a chance de brotar algo novo, quiçá não no institucional atual, mas sim no porvir político institucional.

Os olhos da mídia latina, esperançosos e ansiosos, tentam à luz dos acontecimentos atuais, ler nas entrelinhas das manifestações massivas e populares do Brasil, se outro processo nacional é possível, o que conduziria a uma diferenciada relação política do Brasil com os processos de integração latino-americanos. Mais ALBA, menos MERCOSUL, zero ALCA.

Os jornais latinos refletem sobre o que vêem e não tendem nem ao estereótipo da criminalização, nem às leituras simplistas sobre o que se tem e o que se quer. Vêem os jovens como um dos mais afetados no curto, médio e longo prazo e associam dita condição à lógica geral e particular de reprodução do poder do capital (inter)nacional sobre o trabalho, os territórios, as vidas no âmbito nacional-continental.

Há nestes países uma torcida para que os levantes tensionem e conformem novos projetos no porvir, com acento para o poder-projeto popular.

3.    A mídia de cá

Vergonhosamente a poderosa mídia de cá, quando autônoma, reforça seu ódio de classe e expõe sua típica porta-voz da burguesia nacional. A mídia de cá, além de reproduzir os fatos como mensageira da mídia de lá, reitera o processo social, sem identidade, sem classe, sem partidos e demarca o estereótipo do criminoso jovem brasileiro: arruaceiros-baderneiros-vândalos. Palavras ostensivamente repetidas ao longo dos noticiários com recordes de bilheterias. Os levantes foram transformados no grande tema da Copa das Confederações. O futebol e as ruas se misturaram numa combinação simplista entre os fatos e os mitos do levante popular da juventude.

A mídia hegemônica do lado de cá, ora convoca para a marcha da paz, ora fragmenta manifestando os atos violentos vinculados às manifestações. Explicita que a juventude brasileira já não tolera partidos, votos e Governos, quando em realidade, os fatos atuais não permitem uma tão imediata constatação.

4.    O que temos?

Temos uma diversidade em movimento. Uma escola fundamental de múltiplas e imediatas aprendizagens. Temos gente na rua, jovens na luta, povos aos gritos, manifestando que ainda há esperança. Temos a possibilidade de ler as pautas, das mais específicas às mais amplas, de colocar em movimento a unidade popular e de traçarmos, para frente, pautas unificadas que reivindiquem mudanças e revolucionem as estruturas atuais. Temos tempo de plantação, de organização, para depois, pensarmos como organizar, após a colheita, a distribuição das demandas do povo rumo ao projeto popular para o Brasil.

*Professora da ENFF e da UFVJM, integrante da Consulta Popular

25/06/13