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Sentido da economia e vida

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(6'44" / 1,54 Mb) - "O que significa hoje servir a Deus ou servir ao dinheiro nesta sociedade em que vivemos e quais as consequências sociais e pessoais desse agir." O tema da Campanha da Fraternidade de 2010 – “Economia e Vida Humana” –e seu lema – “Vocês não Podem Servir a Deus e ao Dinheiro” –  é suficientemente instigante para nos induzir a  análises e interpretações que se agregam àquelas já distribuídas nos textos-base da própria Campanha, promovida este ano pelas cinco Igrejas que integram o CONIC (Conselho de Igrejas Cristãs).

Há certamente várias leituras sobre o sentido desta Campanha; ou ainda dos seus objetivos, alcance e significado social. A primeira reação dos veículos de comunicação, da televisão principalmente, foi de  rotineiramente e apresentá-la como iniciativa de promoção humana, na linha dos projetos locais de solidariedade e ajuda mútua. Isto não contradiz o texto-base, mas é muito restrito para responder as provocações propostas pelo tema e lema desta campanha. A palavra evangélica “Vocês não podem  servir a dois senhores – a Deus e ao Dinheiro” é o cerne da questão. Precisa ser trazida para o presente para uma reflexão atual sobre o agir humano nos assuntos econômicos. Mas isto precisa ser feito no contexto da economia, estado e sociedade em que ora vivemos – o capitalismo do século XXI

 O que significa hoje servir a Deus ou servir ao dinheiro nesta sociedade humana em que vivemos e quais as consequências sociais e pessoais desse agir. Isto significa propor a todos e a cada um de nós que há dois projetos éticos distintos quando se trata de economia. Em um deles a finalidade de qualquer ação econômica em última instância é ganhar dinheiro, atender desejos (de consumo) e usufruir utilidades, para o que o dinheiro se transforma em  finalidade em si próprio. Mas há outro projeto do agir econômico no qual o dinheiro é um meio para atender necessidades humanas imprescindíveis, mediante as quais nos capacitamos  para participar de uma vida socialmente digna.

A economia como sistema de mercados capitalistas auto-suficientes impõe e impele toda a sociedade para uma ética utilitária e hedonista do primeiro tipo e expulsa o atendimento das necessidades básicas dos que não tem dinheiro, para fora da economia.

Voltando ao lema da Campanha – essa economia que expulsa o atendimento de algumas necessidades básicas do ser humano (alimento, teto, agasalho, saúde, educação etc) para fora do seu sistema de valores, escolheu um senhor  da vida que não é Deus. Quem  adotá-la como finalidade vida terminará  rejeitando as coisas do Senhor da vida, porque não é possível amar a esses dois senhores.

Mas como um cristão ou mesmo ateu que se defronte com o dilema ético de servir ao deus dinheiro ou servir ao Senhor da vida poderia optar no seu agir econômico. Afinal não é ele um consumidor compulsório de mercadorias, ou um trabalhador da produção mercantil em um sistema econômico gestado pela doutrina utilitária e hedonística. Mesmo desempregado ou servidor público, esse seres humanos integram uma sociedade dominada pelo espírito do capital e do dinheiro como  valores motores,   não apenas da economia ,como também da própria  constituição e identidade da sociedade.

A resposta a esta questão não é simples nem única. Qualquer solução rápida e direta é frágil. Mas o importante dessa Campanha é nos instigar a pensar em projetos alternativos de vida pessoal, social e  econômica que nos libertem  da compulsão imposta pela sociedade do capital e do dinheiro.

Ora, como a economia é uma sistema de valor fundamentado no dinheiro (emitido desde os tempos evangélicos pelo Estado), e na finalidade contínua da sua acumulação, salta aos olhos que o projeto alternativo de vida pessoal e social que nos liberte de sua tirania é uma página em branco da história, de uma nova economia política a ser construída.

Tivemos no Século XX  vários experimentos do socialismo real, que infelizmente não lograram atingir o atendimentos  de uma das necessidades humanas básicas  - a liberdade política. Nas próprias sociedades centro do capitalismo instauraram-se os chamados Estados do Bem Estar, que pela órbita da esfera público introduziram na economia o vetor das necessidades humanas básicas. Mas tudo isto é também reversível porque não é valor central da economia.

Finalmente, a proposta em aberto da “Economia e Vida Humana” é uma utopia necessária, embora ainda insuficiente para nos responder a muitos dos questionamentos que temos à mente.

(*) Economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

18/03/10